O Brasil bateu mais um recorde que ninguém queria ver. Em maio de 2026, 81,6% das famílias brasileiras declararam ter alguma dívida em aberto, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, a PEIC, divulgada pela Confederação Nacional do Comércio.
É o quinto mês seguido de recordes históricos, e o maior índice desde que a série começou a ser medida, em 2010.O vilão da história tem nome e sobrenome: cartão de crédito. Oito em cada dez endividados apontam o plástico como a principal fonte de dívida. Com o rotativo chegando a 428,3% ao ano, segundo o Banco Central, quem paga o mínimo da fatura entra numa espiral da qual dificilmente sai sozinho.
Mas o endividamento não é o mesmo para todo mundo. Entre as famílias que ganham até três salários mínimos, quase quatro em cada dez já estão inadimplentes, ou seja, com contas atrasadas. No topo da pirâmide, o problema existe, mas não sufoca da mesma forma.
O Serasa registrou 81,7 milhões de inadimplentes em fevereiro deste ano. O SPC Brasil contabilizou 74,31 milhões em março. São metodologias diferentes, bases distintas, mas o recado é o mesmo: o Brasil nunca teve tanta gente no vermelho.
O Centro-Oeste lidera o ranking de inadimplência por região: 47,99% dos adultos têm o nome negativado, a maior proporção do país, segundo o SPC Brasil. O Sul aparece no outro extremo, com 40,18%.
Apostas Online
As apostas online tornaram o quadro ainda mais grave. Um estudo da própria CNC, apresentado em abril, estima que as bets retiraram R$ 143 bilhões do varejo entre 2023 e 2026 e empurraram cerca de 270 mil famílias para a inadimplência severa. O setor de apostas contesta os números, mas a relação entre o crescimento das bets e o aperto no orçamento familiar aparece em pesquisa atrás de pesquisa.
O peso da dívida não fica só no bolso. Levantamento da Serasa com mais de 1.700 consumidores mostrou que 64% relatam impacto direto na qualidade de vida, 60% sofrem de ansiedade relacionada às finanças e 55% dormem mal por causa das contas. Outra pesquisa, do SPC Brasil, foi ainda mais contundente: 97% dos inadimplentes sofreram efeitos negativos no bem-estar emocional.
O governo lançou em maio o Novo Desenrola Brasil, com descontos de até 90% para famílias de até cinco salários mínimos e possibilidade de usar parte do FGTS para quitar dívidas. O programa já superou 1 milhão de adesões.
Críticos, no entanto, lembram que a primeira edição do Desenrola registrou crescimento de 15% no calote das dívidas renegociadas dois anos depois.
Com a Selic a 15% ao ano, não há renegociação que resolva o problema pela raiz. Enquanto os juros permanecerem neste patamar, o crédito segue caro, o rotativo continua impagável e o recorde do mês que vem já está quase garantido.









