O ex-ministro da Economia Paulo Guedes é investigado por suspeita de crime contra o sistema financeiro nacional. A apuração envolve uma empresa de criptoativos acusada por investidores de reter recursos e não honrar resgates. A informação veio a público nesta quinta-feira (29/10).
O inquérito da Polícia Federal (PF) foi aberto em 10 de fevereiro de 2026 e tramita sob sigilo na 9ª Vara Federal de Curitiba, com acompanhamento do Ministério Público Federal (MPF). A investigação tem como base a Lei nº 7.492/1986, que define os crimes contra o sistema financeiro nacional.
A empresa no centro do caso é a OnilX, que atua na intermediação de ativos virtuais. Ao todo, 12 pessoas são investigadas, entre elas Guedes e o empresário dono do grupo. A investigação não resultou, até o momento, em operação de busca ou em prisões.
Segundo os investigadores, o papel do ex-ministro seria dar credibilidade às atividades da empresa. Ele teria prestado consultoria, participado de reuniões estratégicas e de encontros reservados com potenciais parceiros, além de ceder o direito de uso da própria imagem em campanhas de divulgação.
Ainda de acordo com a apuração, o contrato com Guedes, apresentado como consultoria técnica, funcionaria na prática como peça publicitária para atrair investidores. Um material promocional da OnilX mostra o ex-ministro ao lado do dono da empresa e de representantes da bandeira de cartões Visa, com a menção de que ele daria “suporte e visão” aos projetos.
Investidores relatam que a empresa prometia rendimentos de até 2,8% ao mês com aplicações em criptomoedas e stablecoins. Em processos judiciais, clientes dizem ter tido os ativos bloqueados e não conseguir sacar os valores. Parte deles suspeita que a estrutura funcionava como uma pirâmide financeira.
Em uma das ações, um casal cobra R$ 876,5 mil da empresa. Os autores afirmam que decidiram ampliar os aportes depois de uma reunião com Guedes, em abril, e que não conseguiram resgatar o dinheiro. Em outro processo, uma vendedora da OnilX teria dito que o ex-ministro “tá dentro da empresa” e oferecido encontro com ele a clientes dispostos a investir entre R$ 3 milhões e R$ 5 milhões.
Um levantamento identificou 108 ações judiciais contra o grupo entre 12 de junho e 10 de setembro. Os processos tramitam em tribunais estaduais do Paraná, do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, de São Paulo, de Sergipe, de Alagoas e do Pará.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já havia determinado, em janeiro, a suspensão de ofertas públicas de intermediação de valores mobiliários pelo grupo. Em abril, a autarquia manteve a ordem, mas esclareceu que ela não alcança a simples intermediação de criptoativos sem promessa de rendimento ou contrato de investimento.
O inquérito registrou despacho judicial e intimações em 21 de setembro, além de novas petições e diligências em outubro. Guedes comandou o Ministério da Economia de 2019 a 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL).
A OnilX nega qualquer irregularidade e afirma atuar regularmente no mercado de ativos virtuais. A defesa de Paulo Guedes, a cargo dos advogados Ticiano Figueiredo e Pedro Ivo Velloso, que também representam o dono da empresa, não havia se manifestado até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.









