O mercado financeiro reagiu com fortes perdas à reeleição do presidente Lula (PT) nesta segunda-feira (26/10). As ações de empresas brasileiras negociadas em Nova York despencaram no pré-mercado, e os contratos futuros de câmbio indicaram desvalorização de cerca de 10% do real frente ao dólar.
Os recibos de ações da Petrobras listados nos Estados Unidos, conhecidos como ADRs, recuavam entre 20% e 25%. Os do Itaú Unibanco caíam mais de 27%, e os do Bradesco chegaram a cair 28%. As ações do Mercado Livre e do Nubank também operavam em forte queda, com perdas entre 10% e 24%.
O principal fundo de índice de ações brasileiras negociado em Nova York, o EWZ, chegou a cair 26%. No Japão, onde o mercado abriu ainda na noite de domingo, pelo horário de Brasília, um fundo atrelado ao Ibovespa recuou 13%.
No câmbio, a reação veio pelo mercado futuro. Contratos de dólar negociados na bolsa de Chicago subiram cerca de 10% e apontaram a moeda americana entre R$ 5,52 e R$ 5,55. Na sexta-feira (23/10), o dólar comercial havia fechado em R$ 4,99.
O movimento ainda não reflete o câmbio oficial, que só começa a ser negociado às 9h, nem o Ibovespa, cujo pregão abre às 10h na Bolsa de Valores de São Paulo (B3). As cotações do pré-mercado costumam ter baixo volume de negócios e podem mudar ao longo do dia.
Segundo analistas, a reação reflete a surpresa com o resultado. Parte do mercado apostava na vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL), que liderou o primeiro turno. Depois de 4 de outubro, o Ibovespa teve a maior alta em um dia desde março de 2020.
“Os mercados não estavam preparados para isso”, afirmou Anna Wu, da consultoria Floodlines Research. O economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics, William Jackson, avaliou que a vitória de Lula frustra as expectativas de reformas.
Para Felipe Balassiano, da gestora ASA, o resultado foi a maior surpresa da eleição. Ele prevê forte volatilidade, pressão sobre a Bolsa e o real e alta dos juros futuros, e afirma que a duração do movimento vai depender dos sinais fiscais do novo governo.
A preocupação central dos investidores é com o equilíbrio das contas públicas e a trajetória da dívida. Antes da eleição, o banco JPMorgan estimou que, em um cenário de piora fiscal gradual, as ações brasileiras poderiam cair cerca de 21%, e o real se desvalorizar aproximadamente 6%.
A turbulência também pode afetar os juros. Com riscos fiscais maiores e um real mais fraco, analistas passaram a ver como menos prováveis os cortes da taxa Selic previstos para as próximas reuniões do Banco Central.
Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio. No discurso da vitória, o presidente não tratou de economia de forma direta, mas criticou as grandes empresas de tecnologia que, segundo ele, não pagam impostos no país.






