Vorcaro trocou mensagens com Alexandre de Moraes antes da prisão

Fotos: Reprodução/Agência Brasil

O empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e alvo central da Operação Compliance Zero, escreveu a frase “Conseguiu bloquear?” em uma das últimas mensagens enviadas no dia em que foi preso. O destinatário, segundo relatório da Polícia Federal e reportagem de Malu Gaspar, foi o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

O magistrado respondeu na sequência, mas o teor da resposta ficou oculto porque, a partir dali, as conversas passaram a ser feitas por meio de mensagens de visualização única, que se apagam após a leitura.

O diálogo com o contato identificado como Moraes é o ponto mais sensível de um conjunto de mensagens extraídas do celular de Vorcaro, que desenham uma rede de informação privilegiada, aproximação com autoridades de alto escalão e tensões nos bastidores do sistema financeiro.

Em 2024, por exemplo, um interlocutor não identificado alertou o banqueiro sobre o “inquérito 56/2024” e operações fraudulentas relacionadas a um fundo internacional de petróleo. De acordo com a PF, o grupo de inteligência contratado por ele teria acessado dados da própria corporação, do Ministério Público Federal e até de órgãos como FBI e Interpol, usando credenciais de terceiros e o apoio de um policial federal aposentado.

Nas trocas de mensagens, Vorcaro demonstra orgulho da proximidade com autoridades. Após discursar em Londres, em evento patrocinado pelo Banco Master com a presença de ministros de cortes superiores e outras figuras do Judiciário, escreveu para a namorada: “Eu sou muito louco. Essa realidade. Todos os ministros do Brasil. Do STF, STJ etc. E euzinho discursando”, acompanhado de emoji de gargalhada.

Os diálogos também revelam momentos de pressão. Ainda em abril de 2024, ele relatou viver “uma extorsão bem chata” em Brasília e completou: “Difícil me abalar e jogar para baixo. Mas essa foi foda”. Não há, porém, identificação de quem estaria por trás da suposta chantagem.

O banqueiro não poupou críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Em julho de 2024, ao reagir a uma publicação do então político no “X” sobre o Banco Master, escreveu: “idiota”. A mensagem veio depois de reportagem que ligava demissões na Caixa Econômica Federal a uma operação de R$ 500 milhões em títulos do Master.

Já com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o tom foi bem diferente. Em dezembro de 2024, Vorcaro relatou à namorada que uma reunião com o petista havia sido “ótima” e que Lula chamara Gabriel Galípolo para o encontro — economista que, meses depois, assumiria a presidência do Banco Central. O banqueiro descreveu a conversa como “muito forte” e mencionou a presença de três ministros, sem detalhar quem seriam.

A compra de 58% do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB), em março de 2025, também aparece nas conversas. Naquele momento, Vorcaro desabafou: “Amor, tá bem tenso, a turma dos bancos está furiosa e ontem plantaram várias notícias. Vai ser uma semana de retaliação contra mim”. Segundo ele, o negócio despertou insatisfação em concorrentes do setor financeiro.

O relatório da PF registra ainda mensagens com o ex-governador de São Paulo João Doria, que teria enviado recados demonstrando preocupação com a situação do amigo e sugerido uma conversa reservada. Em outro trecho, Vorcaro conta à namorada que André Esteves, dono do BTG, tentou dissuadi-lo da operação com o BRB e afirma que o rival disse que o Master deveria “agradecer a Deus” pela proposta. Nas conversas, ele e Martha Graeff chamam o banqueiro de “ardiloso”, “pateta” e “cínico”.

A Polícia Federal também identificou trocas de mensagens em que Vorcaro relata ter se encontrado duas vezes com alguém registrado como “alexandre moraes”, em abril de 2025. Os diálogos, porém, não deixam claro se se trata de Alexandre de Moraes, ministro do STF, ou de um homônimo. É nesse contexto que ganha peso o recado enviado no dia da prisão “Conseguiu bloquear?”, que coloca o nome do magistrado no centro das dúvidas e amplia a cobrança por esclarecimentos sobre o conteúdo das conversas e a relação entre o investigado e autoridades do alto escalão da República.

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