Após semanas em um cronograma à parte, o camisa 10 está liberado para reaparecer justamente quando o Brasil decide a liderança do grupo — e quando a própria seleção mais precisa de uma faísca.
Houve uma frase, dita com a serenidade de sempre, que mudou o tom da noite brasileira em Miami. Questionado sobre a ausência do camisa 10 e a possibilidade de utilizá-lo na próxima partida, Ancelotti respondeu que Neymar treinaria individualmente no dia seguinte, se juntaria ao grupo na segunda-feira e estaria preparado para o jogo contra a Escócia. 
Não foi um talvez. Foi um cronograma e, vindo de um treinador que fez da prudência com Neymar uma espécie de método, soou quase como uma data marcada no calendário.
A confirmação chegou logo após a vitória que arrumou a casa. O Brasil venceu o Haiti por 3 a 0 e, com o resultado, recebeu a notícia que vinha sendo adiada rodada após rodada. 
O time já vinha respirando melhor: a seleção assumiu a primeira posição do Grupo C ao fim da segunda rodada.  Mas o que se viu na coletiva foi outra coisa o alívio de quem finalmente pôde falar de Neymar no presente, e não como uma promessa adiada.
Para entender o tamanho do anúncio, é preciso lembrar de onde Neymar está voltando. O atacante não havia atuado nesta Copa por conta de problemas físicos e, desde a apresentação da seleção nos Estados Unidos, seguia um cronograma específico de recuperação, treinando separado do restante do elenco. 
A imagem do camisa 10 fazendo trabalho isolado enquanto os companheiros entravam em campo virou rotina e, para o torcedor, uma fonte silenciosa de ansiedade.
A natureza da lesão explica o cuidado. Neymar se recupera de uma lesão de grau 2 na panturrilha direita, que o tirou da estreia diante do Marrocos e também do jogo contra o Haiti, em processo de transição física em Nova Jersey. 
Lesões musculares dessa gravidade não perdoam pressa, e Ancelotti, ao longo de todo o seu trabalho à frente da seleção, nunca demonstrou disposição de apostar contra a biologia. Desde que assumiu o cargo, o treinador não havia convocado Neymar, sempre justificando a ausência por motivos físicos. 
A coerência, agora, é o que dá credibilidade ao anúncio: se Ancelotti diz que ele está pronto, é porque o calendário de recuperação foi cumprido à risca.
O roteiro tem algo de simbólico. Brasil e Escócia se enfrentam em 24 de junho de 2026, às 19h de Brasília, no Hard Rock Stadium, em Miami, pela terceira e última rodada do Grupo C. 
Não é um amistoso, não é um jogo de menor importância é a partida que fecha a chave e que pode definir em que posição o Brasil avança. O grupo se encerra nessa data com dois jogos simultâneos, Brasil x Escócia e Marrocos x Haiti. 
E há um adversário que carrega história. Em quatro confrontos de Copa do Mundo, o Brasil nunca perdeu para a Escócia: três vitórias e um empate, uma invencibilidade que se estende por 52 anos. 
Do outro lado, porém, não há um rival resignado. A Escócia retornou à Copa após 28 anos de ausência, em sua nona participação na história, sem nunca ter passado da fase de grupos e isso, longe de ser um detalhe, é combustível. Uma seleção que esperou quase três décadas por esse palco não entra em campo para cumprir tabela.
Reaparecer num jogo assim diz muito sobre a leitura de Ancelotti. Não se trata de poupar Neymar de uma decisão trata-se de devolvê-lo ao time exatamente numa decisão, confiando que o camisa 10 ainda é o tipo de jogador que encontra espaço onde os outros veem apenas paredes.







