Nesta quarta-feira (12/8), uma operação da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) avançou contra uma rede suspeita de fabricar e distribuir clandestinamente anabolizantes, substâncias controladas e termogênicos adulterados para diferentes regiões do país.
Batizada de Operação Narciso, a ofensiva resultou na expedição de 45 mandados de prisão, bloqueio de mais de R$ 32 milhões e medidas contra estabelecimentos e perfis utilizados pelo grupo.
O Distrito Federal concentrava parte das bases de produção e armazenamento, segundo a investigação. A estrutura incluía ainda academias ligadas à divulgação dos produtos e uma gráfica responsável pela confecção das embalagens. O esquema também alcançava Goiás, Paraíba, Paraná, Acre e Minas Gerais.
A investigação é conduzida pela Coordenação de Repressão aos Crimes contra o Consumidor, a Propriedade Imaterial e a Fraudes (Corf). A apuração ganhou força após uma busca na residência de um dos investigados apontados como liderança de um dos núcleos. Mensagens encontradas em um celular apreendido teriam revelado como diferentes integrantes atuavam dentro da estrutura.
Segundo a PCDF, produtos hormonais, diuréticos e estimulantes eram preparados de maneira caseira e precária em residências e depósitos, sem controle de esterilidade, pureza ou segurança sanitária.
Para transmitir aparência de produto importado, as embalagens utilizavam nomes estrangeiros e bandeiras de outros países. A polícia afirma que algumas imitavam marcas conhecidas, enquanto outras simulavam laboratórios internacionais que sequer existiam.
A estrutura investigada ia além de quem fabricava ou vendia os produtos. A PCDF identificou a participação, em diferentes funções, de designers, nutricionistas, treinadores e médicos veterinários.
De acordo com a investigação, designers desenvolviam a identidade visual das marcas clandestinas, enquanto nutricionistas e treinadores auxiliavam na recomendação e divulgação das substâncias. Veterinários são investigados por supostamente emitir receitas falsas para permitir a compra de medicamentos controlados em estabelecimentos agropecuários.
A gráfica ligada ao esquema teria produzido rótulos e embalagens sob encomenda. Segundo a polícia, arquivos de impressão eram apagados das máquinas para dificultar a identificação da origem do material durante uma eventual investigação.
Outro braço investigado envolve a movimentação financeira do grupo. A PCDF afirma ter identificado um sistema de lavagem de dinheiro em diferentes níveis, com utilização de contas de terceiros, empresas de fachada e operadores financeiros.
Pagamentos de clientes também teriam passado por chaves Pix e contas bancárias pertencentes a parentes dos investigados. Em outra frente, uma empresa teria sido utilizada para movimentar valores entre estados.
A investigação identificou ainda o uso de casas de apostas virtuais e plataformas de jogos de quota fixa. Segundo a PCDF, esses ambientes eram utilizados para converter, fracionar e transferir rapidamente recursos, dificultando o rastreamento do dinheiro pelos órgãos de inteligência financeira.
Em Goiás, a polícia identificou depósitos utilizados para receber insumos na divisa com o Distrito Federal, além de uma farmácia de manipulação investigada e movimentações financeiras relacionadas ao grupo.
Em João Pessoa (PB), um dos núcleos teria instalado um laboratório em uma mansão alugada. A investigação cita ainda uma residência de alto padrão à beira-mar utilizada por um dos apontados como líderes e o recebimento de insumos importados por remessas postais.
Já em Foz do Iguaçu (PR), estaria localizada uma fornecedora ligada ao abastecimento interestadual das substâncias. A rede também alcançava Rio Branco (AC) e Uberlândia (MG), locais que, segundo a PCDF, eram utilizados tanto para distribuição dos produtos quanto para concentração de patrimônio dos investigados.
Com o avanço das investigações, a Justiça autorizou medidas contra quatro núcleos considerados ativos pela Polícia Civil.
Foram expedidos 45 mandados de prisão contra pessoas apontadas como líderes, responsáveis pela logística e intermediários financeiros. Também houve determinação de busca e apreensão contra 50 alvos, entre pessoas físicas e jurídicas. A expedição dos mandados não significa, por si só, que todos os alvos já tenham sido presos.
A Justiça determinou ainda o bloqueio de mais de R$ 32 milhões em contas relacionadas aos investigados e às empresas vinculadas ao esquema. Onze veículos de alto padrão tiveram o sequestro decretado, entre eles automóveis de luxo, esportivos, caminhonetes, SUV e motocicleta de alta cilindrada.
Outras medidas atingiram diretamente a estrutura comercial da rede. A decisão autorizou o lacramento e a suspensão das atividades de 13 estabelecimentos e laboratórios de manipulação, além da quebra de sigilos bancários e telemáticos.
Também foi determinada a exclusão e o bloqueio de 22 perfis em redes sociais que, segundo a investigação, eram utilizados para divulgar os produtos e captar compradores.
A Operação Narciso segue em andamento, e a responsabilização individual dos investigados dependerá da conclusão das apurações e da análise das provas pela Justiça.








