Polícia Federal disse não, pela segunda vez, à proposta de delação premiada do banqueiro Daniel Vorcaro. A decisão, comunicada nesta quarta-feira (20/05) aos advogados do empresário, encerra mais um capítulo de um processo que começou com a promessa de um acordo e terminou com Vorcaro de volta à carceragem comum da Superintendência da PF em Brasília, sem os benefícios que acompanham um colaborador.
A proposta tinha sido entregue formalmente no dia 6 de maio aos investigadores e à Procuradoria-Geral da República. Menos de duas semanas depois, a resposta da corporação foi a mesma da primeira tentativa: não serve. Para a PF, o material entregue pela defesa não passou de uma repetição do que os próprios agentes já haviam descoberto por conta própria ao longo da Operação Compliance Zero.
“Uma proposta vazia, praticamente sem nada além dos fatos que já foram descobertos na investigação.” disse uma fonte ligada às investigações.
O problema, segundo autoridades que acompanham o caso, não foi apenas a ausência de informações novas. A PF identificou omissões deliberadas: fatos que constam nos celulares apreendidos durante as fases da operação simplesmente não apareceram nos anexos entregues pela defesa.
Além disso, investigadores avaliaram que Vorcaro tentou preservar nomes influentes de Brasília supostamente envolvidos no esquema de fraudes, contrariando um dos requisitos centrais de qualquer acordo de colaboração, que é a boa-fé.
Há pelo menos três pontos que, segundo fontes da investigação, pesaram decisivamente contra o acordo. O primeiro é a questão da devolução de recursos: a defesa propôs ressarcir cerca de R$ 40 bilhões ao longo de dez anos, prazo considerado excessivo pela PF e pela PGR, que queriam condições mais concretas e imediatas.
O segundo problema foi a ausência de boa-fé, avaliada pelos investigadores como requisito não cumprido. O terceiro, e talvez o mais grave, foi a percepção de que o banqueiro tentou blindar aliados cujos nomes já aparecem nas provas colhidas pela corporação.
A PF avalia que o material probatório obtido de forma independente ao longo das três fases da operação é robusto o suficiente para avançar com o inquérito e apresentar denúncia formal, mesmo sem a contribuição de Vorcaro.
O que vem pela frente
Com a PF fechando as portas, as fichas de Vorcaro ficam com a Procuradoria-Geral da República. A PGR ainda tem autonomia para negociar e assinar um acordo de colaboração premiada, independentemente da posição da corporação.
No entanto, investigadores ouvidos pela reportagem são céticos quanto a essa possibilidade. A avaliação predominante é de que a PGR deve seguir a mesma linha da PF, especialmente porque os problemas apontados, como a falta de boa-fé e a tentativa de proteger terceiros, não são exclusivos da análise policial.
Formalmente, a defesa pode apresentar uma nova proposta, mais completa, com informações que ainda não foram reveladas. Pessoas que acompanham o caso consideram improvável que a PF reveja sua posição sem que algo substancialmente diferente apareça.
O ministro André Mendonça, relator do caso no STF, também deu sinais de distanciamento: segundo apuração do jornal O Globo, ele deixou de receber o advogado José Luís de Oliveira Lima, o Juca, que coordena a defesa do banqueiro.









