PF aponta Flávio Bolsonaro como “interlocutor direto” de Vorcaro sobre Dark Horse

Pedro França/Agência Senado

A Polícia Federal (PF) investiga o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, e aponta que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mantinha contato direto com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, nas tratativas sobre os recursos para a produção.

Segundo a PF, mensagens encontradas no celular de Vorcaro mostram que Flávio não era apenas citado por outras pessoas, mas atuava como interlocutor direto do banqueiro nas negociações. Os registros incluem cobranças de pagamentos, possíveis reuniões presenciais e conversas sobre o andamento das gravações.

A informação consta em representação da Polícia Federal enviada ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), dentro do inquérito que investiga os crimes relacionados ao caso do Banco Master. Os documentos tiveram o sigilo retirado na noite dessa quinta-feira (10).

De acordo com a investigação, Flávio teria pedido R$ 131 milhões a Vorcaro para financiar o filme, dos quais R$ 60 milhões teriam sido pagos. Em outra frente da apuração, documentos citam repasses de R$ 62,8 milhões atribuídos ao banqueiro para a produção.

Os primeiros registros de mensagens diretas entre Flávio e Vorcaro identificados pela PF são de agosto de 2025. Em 20 de agosto, uma conversa indica a possibilidade de um encontro presencial entre os dois. Vorcaro escreveu “21 pode ser”, e Flávio respondeu “Blz” e, depois, “A caminho”.

Em 8 de setembro, Flávio enviou um áudio cobrando pagamentos atrasados do filme e demonstrando preocupação com os compromissos assumidos pela produção. Ele citou o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh e afirmou que um eventual calote poderia prejudicar a imagem do filme. Vorcaro pediu desculpas e disse que tentaria resolver a situação.

No mês seguinte, em 22 de outubro, Flávio voltou a cobrar o empresário. Segundo a PF, ele informou que as gravações estavam no terceiro dia e que a produção estava “no limite”. O senador pediu que Vorcaro avisasse caso não conseguisse fazer o aporte, para que ele pudesse buscar outra solução.

A investigação aponta ainda outras possíveis reuniões. Em setembro, Thiago Miranda, apontado como intermediário dos repasses, teria informado a Vorcaro que Flávio queria conversar pessoalmente sobre o filme. Em outubro, o senador convidou o banqueiro para um jantar com a equipe da produção, marcado para 6 de novembro.

Um dia antes da deflagração da Operação Compliance Zero, em 16 de novembro, Flávio tentou ligar para Vorcaro. O banqueiro respondeu que estava na igreja. Na sequência, o senador enviou uma mensagem afirmando que estaria ao lado dele e pediu que lhe desse “uma luz”.

Recursos enviados aos Estados Unidos

A PF também investiga transferências para os Estados Unidos. Dados de um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) apontaram pelo menos sete remessas da Entre Investimentos para o Havengate Development Fund LP, que somaram US$ 12,33 milhões.

Segundo a PF, o fundo ficou quase quatro anos sem movimentações públicas até receber, em 13 de fevereiro de 2025, uma primeira remessa de US$ 2 milhões da Entre Investimentos para o financiamento do filme.

O Havengate é administrado pelo advogado de imigração Paulo Calixto, apontado como aliado de Eduardo Bolsonaro. A investigação apura se parte dos recursos enviados aos Estados Unidos também poderia ter sido utilizada para financiar a permanência de Eduardo no país.

Em março de 2025, Thiago Miranda enviou a Vorcaro uma captura de tela de uma conversa com Eduardo Bolsonaro. Na mensagem, o ex-deputado tratava da transferência dos recursos para os Estados Unidos e defendia que o dinheiro já estivesse no país.

Emendas parlamentares e operação da PF

As investigações sobre Dark Horse também envolvem a possível destinação de emendas parlamentares a entidades ligadas à produtora do filme. A PF apura suspeitas de desvio de recursos públicos e falta de transparência na utilização desses valores.

Na quinta-feira (10/9), a PF deflagrou uma operação relacionada ao caso e cumpriu 49 mandados de busca e apreensão. Entre os alvos estavam o ex-secretário especial da Cultura Mario Frias e Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse.

Segundo a PF, a investigação apura suspeitas de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares e movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas relacionadas ao suposto esquema. Entre os crimes investigados estão peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.

Disputa sobre a relatoria

A defesa de Flávio Bolsonaro tentou quatro vezes transferir para o ministro André Mendonça a investigação relacionada à destinação de emendas parlamentares a entidades ligadas à produção de Dark Horse. Os pedidos foram apresentados entre 3 e 29 de julho deste ano.

Duas solicitações foram encaminhadas ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, e outras duas ao ministro Flávio Dino.

Os advogados argumentaram que Mendonça deveria concentrar as apurações por já ser relator de outros procedimentos envolvendo o filme e o financiamento obtido junto a Vorcaro. A defesa também questionou a vinculação da investigação sobre emendas à ADPF 854, relatada por Dino.

Em um dos pedidos, os advogados acusaram a existência de uma “prevenção artificial” para definir a relatoria. A defesa afirmou ainda que cinco de seis procedimentos relacionados às investigações sobre Dark Horse estavam sob a relatoria de Mendonça.

A operação realizada pela PF, no entanto, foi autorizada por Flávio Dino.

Documentos e investigação sobre o financiamento

A PF solicitou documentos societários, contábeis, fiscais, bancários e contratuais da Go Up Entertainment LLC. Michael Davis, que se identifica como sócio majoritário da empresa, afirmou que documentos mantidos nos Estados Unidos não deveriam ser enviados diretamente às autoridades brasileiras sem o cumprimento dos mecanismos de cooperação jurídica internacional.

Segundo a PF, os documentos são importantes para esclarecer a origem dos recursos, o caminho percorrido pelo dinheiro e os beneficiários finais.

Flávio e Eduardo Bolsonaro negam irregularidades relacionadas ao financiamento de Dark Horse. Flávio também afirma publicamente que não houve dinheiro público no financiamento do filme.

A investigação sobre a produção reúne diferentes frentes, incluindo os repasses atribuídos a Vorcaro, as transferências para os Estados Unidos, a possível utilização de recursos para a permanência de Eduardo no país e a destinação de emendas parlamentares a entidades ligadas à produtora.

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