Cérebro de viciados em telas lembra o de paciente no início do Alzheimer

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Nesta terça-feira (14/7), pesquisas sobre o uso problemático da internet voltaram a chamar atenção para os efeitos do excesso de telas no cérebro de adolescentes. Os estudos identificam mudanças em redes ligadas à memória, ao controle dos impulsos e à tomada de decisões.

Uma das principais análises sobre o tema foi publicada em 2024 na revista científica PLOS Mental Health. Os pesquisadores revisaram 12 estudos de ressonância magnética funcional que reuniram 237 adolescentes diagnosticados com dependência de internet.

Os exames mostraram alterações na comunicação entre diferentes regiões do cérebro. As áreas afetadas participam de funções como recompensa, atenção, coordenação motora, memória e controle do comportamento.

Isso significa que o uso compulsivo da internet pode estar associado a dificuldades para interromper uma atividade, controlar impulsos e tomar decisões. A pesquisa, porém, não acompanhou adolescentes saudáveis até o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas e não analisou biomarcadores específicos do Alzheimer, como acúmulo de beta-amiloide ou proteína tau.

Alteração cerebral não significa Alzheimer

A comparação com o Alzheimer surgiu principalmente a partir do conceito de “demência digital”. Um artigo científico publicado em 2022 levantou a hipótese de que a exposição excessiva às telas durante o desenvolvimento poderia elevar, no futuro, o risco de perda de memória e doenças neurodegenerativas.

O próprio trabalho, no entanto, apresenta uma hipótese construída a partir de pesquisas anteriores. Ele não comprova que celular, videogame ou rede social causem Alzheimer em adolescentes.

Também é incorreto tratar qualquer dificuldade de memória ou concentração como demência. O Alzheimer envolve um processo biológico específico e progressivo, diagnosticado por avaliação médica, testes cognitivos e, em alguns casos, exames que detectam alterações características da doença.

Uso problemático preocupa especialistas

O alerta científico mais consistente está relacionado ao uso compulsivo, e não simplesmente à presença de telas na rotina. A Organização Mundial da Saúde aponta que 11% dos adolescentes avaliados em um levantamento internacional apresentavam sinais de uso problemático das redes sociais, como perda de controle, abstinência e abandono de outras atividades.

Esse comportamento também aparece associado a pior qualidade do sono, menor bem-estar, ansiedade e dificuldades na vida escolar. A relação, contudo, pode ocorrer nos dois sentidos: problemas emocionais podem aumentar o tempo conectado, enquanto o uso excessivo pode agravar condições já existentes.

Por isso, os pesquisadores evitam estabelecer um número único de horas que seja prejudicial para todos. O tipo de conteúdo, o horário de uso e o impacto sobre sono, estudos, atividade física e convivência familiar são fatores tão importantes quanto o tempo diante da tela.

Sinais que merecem atenção

A preocupação aumenta quando o adolescente não consegue reduzir o uso, perde horas de sono, abandona atividades, apresenta queda no rendimento escolar ou reage com irritação intensa ao ficar sem acesso ao aparelho.

Nessas situações, a orientação é estabelecer uma rotina gradual, preservar os horários de sono e estimular atividades físicas e presenciais. Caso o comportamento cause sofrimento ou prejuízos significativos, a família deve procurar avaliação de um profissional de saúde.

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