O ex-presidente do banco público do Distrito Federal afirmou à polícia que a aproximação com o Banco Master foi decidida em um jantar entre o então governador e o dono da instituição privada. Segundo ele, a ordem para estruturar a operação partiu diretamente do chefe do Executivo local.
O depoimento de Paulo Henrique Costa, que presidiu o Banco de Brasília (BRB), foi colhido pela Polícia Federal (PF) em 15 de outubro. Ele foi enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) com o relatório que indiciou Costa, o banqueiro Daniel Vorcaro e outras 13 pessoas por crimes financeiros. Costa e Vorcaro estão presos.
Segundo o ex-presidente, em 24 de setembro de 2024 ele recebeu uma mensagem do gabinete do então governador Ibaneis Rocha (MDB), convocando-o para um jantar na casa de Vorcaro. Costa contou que estava na Bahia e tentou evitar o encontro, sem sucesso. Havia sete pessoas à mesa.
No jantar, de acordo com o depoimento, Ibaneis disse: “Paulo, estrutura uma venda do BRB para o Master”. Vorcaro, segundo Costa, afirmou: “eu preciso de um acordo de acionista que me garanta controle”. O ex-presidente disse ter sido contra a operação por risco de privatização do banco e ter dito ao governador: “chefe, não concordo com essa operação”.
A resposta de Ibaneis, ainda segundo Costa, foi tratar o tema como decisão do acionista majoritário, o próprio governo do DF. “Paulo, é uma decisão do acionista”, teria dito. Questionado pela delegada, o ex-presidente afirmou ter sido “pego de surpresa”.
Costa defendeu a compra de carteiras de crédito do Master pelo BRB e disse que a operação não causou prejuízo ao banco. “A gente definiu com o então governador eleito e depois isso foi tudo submetido às instâncias de governança do BRB e aprovado, com os ajustes que essas instâncias trouxeram”, afirmou.
Entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, o BRB comprou R$ 9,52 bilhões em carteiras emitidas pelo Master. A PF aponta ainda dois aumentos de capital fraudulentos no banco público, que permitiram a fundos e pessoas ligadas a Vorcaro chegar a 23,5% do BRB. Segundo a investigação, a fraude supera R$ 12 bilhões.
Os relatórios da PF registram também um encontro em Zurique, na Suíça, em 23 de janeiro de 2025, entre Vorcaro, Ibaneis, Costa e um quarto interlocutor. Para os investigadores, Ibaneis “não se limitou” às prerrogativas institucionais e atuou na articulação com agentes privados, na validação de decisões operacionais e na autorização dos valores do aumento de capital.
A operação chegou a ser invertida, com o BRB negociando a compra do próprio Master. O negócio foi aprovado pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), mas barrado pelo Banco Central, que depois liquidou o Master.
Costa é investigado por corrupção e, segundo a PF, teria recebido imóveis de luxo em troca da compra das carteiras. Ele tentou fechar acordo de delação premiada, rejeitado pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Ainda assim, o depoimento integra o inquérito e pode ser usado como prova.
A defesa de Ibaneis, a cargo do advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, nega que o ex-governador tenha pressionado ou interferido nas operações do BRB. Sustenta que Costa tinha autonomia para conduzir as negociações, que a relação entre os dois era institucional e que Ibaneis não aparece como interlocutor direto em nenhuma mensagem com Vorcaro.







